Kafka, a burocracia e as operadoras de celular

celular_bloqueado Poucas vezes na vida arrastei tanto a leitura de um livro como o fiz com “O Castelo”, do autor Franz Kafka, nascido na capital da extinta Tchecoslováquia, hoje República Tcheca. Reservo o espaço Café Cultural para indicar livros ou textos dos quais gostei, mas vou abrir uma exceção dessa vez. Não que o livro seja ruim. O problema é que o autor descreve tão bem os entraves burocráticos que chega a irritar. As frases são imensas e recheadas de vírgulas, os parágrafos são gigantescos e cada acontecimento leva uma eternidade pra se desenrolar. Enfim, uma leitura muito cansativa. Se o objetivo do autor era mostrar como um determinado sistema pode sufocar ações simples, foi extremamente feliz, para infelicidade de quem está lendo.





Kafka narra a história de K., um agrimensor¹ contratado pelos senhores do Castelo. O início do livro é interessante e tem um clima de mistério. Ao chegar no povoado durante a noite, K. procura um lugar para descansar. Começam os problemas para o agrimensor, pois ninguém o esperava e não podiam dar guarida sem consentimento dos senhores do Castelo. Apesar disso, consegue se instalar e passar a noite na estalagem.

O Castelo_capa do livroNo dia seguinte, tenta entrar em contato com quem o contratou. Porém, descobre que foi contratado por engano e que não precisavam mais dos seus préstimos. Como havia visto nesse trabalho uma boa oportunidade, insistiu em falar com os responsáveis por aquela situação. Aí começa o seu pesadelo. Não demora muito a perceber que as pessoas do povoado pensam de modo completamente diferente e que se sentem satisfeitas por viver sob a proteção e as leis dos seus superiores. O que mais atormenta K. é o fato de que não consegue se comunicar com ninguém do castelo e sua vida se resume a várias tentativas frustradas de corrigir o engano que o levou até ali.

O clima de mistério do começo vai se tornando uma coisa irritante, pois nada de diferente acontece. Menos de cem páginas e comecei a me arrepender de ter aberto o livro. A partir daí, não conseguia ler mais do que duas páginas. Duas páginas e dormia com o livro na mão. Um efeito mais devastador do que o maracujá.

Já falei que sou viciado em leitura. Pego um livro e leio quase todo sem parar, pois mais chatinho que seja, na esperança de tirar algo de bom da leitura. O que me fez parar com essa mania (que às vezes é uma perda de tempo) foi a Divina Comédia (Dante Alighieri). Esse eu não consegui terminar de ler. Uma viagem pelo inferno, purgatório e céu. Acho que não consegui chegar ao purgatório de tantos níveis que tem o inferno. Nem acredito no inferno. Acho que o céu e o inferno estão dentro de cada um de nós. Para mim, o céu é a consciência tranquila e o inferno o oposto disso. O resto a gente resolve.

Voltando ao mestre do “absurdo” - como é considerado por muitos e com razão - Kafka parece que teve uma visão sobre a prestação de serviços de operadoras de celular. Isso mesmo! O personagem não consegue de modo algum resolver uma questão simples e nem se comunicar com quem pode resolvê-las. Em determinados momentos, parece que os senhores do castelo nem existem pelo fato de que nunca são vistos.

Enfim, já na época em que foi escrito (há quase 100 anos), a burocracia devia ser algo que incomodava os cidadãos.

Poupando os amigos leitores da perda de tempo, devo dizer que o personagem nunca conseguiu falar com ninguém do castelo, o que realmente me fez lembrar das tentativas para desbloquear o celular e me deixou mais irritado ainda. Ao menos no livro esperava um final feliz.

O que achei interessante foi a visão do autor sobre os rumos da burocracia. Não é que ele acertou em cheio! No momento não lembro de nada mais irritante do que as músicas de espera e das transferências de setor a setor quando se quer fazer uma reclamação sobre os serviços prestados.

Realmente, Kafka consegue sempre escrever sobre situações inusitadas, como nos livros O processo e A Metamorfose, excelentes por sinal. Sobre A Metamorfose, abri e só fechei ao fim da leitura. Mas, isso eu falo no próximo post da seção Café Cultural.

Até breve!
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1 Agrimensor – quem faz a medição de terras.

10 Comentários:

Maria do Rocio Rodi Gonçalves

Boa associação, Max!

O castelo fica no topo de uma montanha... Que montanha, hem? Assemelha-se à Torre de Babel, línguas estranhadas e ninguém consegue falar com alguém. Comunicação frustrada, tentativas frustradas, leitor frustrado. Esse estilo tem a ver com pessoas resistentes que procuram por uma fonte em pleno deserto. O autor gosta de surpreender o leitor, o perfil de seu “interlocutor”, imaginar sentimentos, mexer com seu metabolismo, tirar seu sono, testar sua paciência, seus medos, suas raivas... Se quer provocar tanto talvez queira também dizer que é preciso ter atitude e definição na vida. Sei lá! Agrega coisas do suspense, surreal, do absurdo... Penso que reações como estas que descreve tenham sido pensadas por Kafka, assim como quem inventou o chá amargo (torturante/desesperador) da irritação, cansaço, resistência dos usuários de celulares para não deixar a operadora. É uma trama! Pior do que se sentir preso a qualquer relação afetiva de outrora ou ser escravo de um senhor do engenho cruel, que sonha com a libertação e consegue. E nós continuaremos presos às telefonias. Um bom leitor como você é bastante tinhoso no processo. Apesar de não recomendar a leitura, dá para sentir sua resistência por trás do texto. Parabéns pelo teste de ferro a que se permitiu submeter. Quem venceu a batalha? Abraços guerreiros!

Sumie

Max nunca li nada de Kafka e que incrível que a 100 anos atrás a burocracia era igual nos dias atuais.
Bom fim de semana.
Bjs!

Max Martins

Maria,

Primeiro, o livro me deu muito sono mas depois me tirou o sono de tanta "raiva"...rs
A incomunicabilidade é a marca desse livro. Mesmo com os habitantes da aldeia, o agrimensor não conseguia se entender. Era totalmente estranho ao lugar. Pensamentos diferentes que chocavam a todo instante.
Digamos que a batalha terminou empatada. Realmente, não recomendo a leitura porque é muito cansativa. Entretanto, creio que Kafka atingiu o seus objetivos de manter o leitor preso à história e de colocá-lo um pouco no lugar do personagem, na luta angustiante por chegar à pagina final. Vejo muito do agrimensor nas pessoas que sonham e lutam por seus objetivos, por mais inviáveis que possam parecer.


Sumie,

Parece que a burocracia já existia naquela época, mas acredito que não era como agora e que o autor resolveu escrever sobre os rumos que poderia tomar. Praticamente tendo uma visão de hoje. Acho que tinha uma bola de cristal...hehehe.
Procure os livros "O processo" e "A metamorfose". São menos cansativos e surpreendentes. Vale a pena ler.

Meninas, é sempre um prazer imenso receber a visita de vocês.
Espero que tenham um excelente fim de semana.

Beijos!

Valdeir Almeida

Max,

Incrível. Você conseguiu fazer uma relação entre o livro "O Castelo", de Kafka e as operadoras de celular. Eu jamais havia parado para pensar que há muito em comum entre a história e a burocracia da telefonia móvel. Parabéns, Max.

Quanto ao texto maçante do livro: creio que Kafka tenha escrito assim para que o leitor "sentisse" a agonia do personagem. É uma possibilidade.

Abraços, amigo, e ótimo domingo.

P.S.: Ótimo texto para trabalhar em sala de aula, você me permite?

Max Martins

Valdeir,

Ao longo da leitura comecei a pensar em algo atual que fosse tão irritante como a situação da personagem. A tentativa de desbloquear um celular, as músicas de espera e as transferências de setor, vieram à mente na hora.
Pensando nos outros livros do autor que citei no texto, cheguei a conclusão de que o texto foi escrito assim de propósito. Pois, nos outros livros a leitura flui facilmente.
Quanto ao seu pedido a resposta é: claro que sim. Me conta depois como se desenvolveu o trabalho.

Forte abraço e ótimo domingo pra ti também.

Franz

Max, agradecendo sua visita venho dizer que gostei do novo visual do blog. Parabéns pelo banner, a logo do blog tb esta o´tima.
Quanto a Kafka muito boa sua sacada e analogia. Não é a toa que dizemos "burocracia kafkaniana". Kafka é leitura obrigatória. Li Kafka pela vez primeira pelos 17 anos, e abandonei O Castelo exatamente por isso. Retornei tempos depois para concluir. Mas recomendo os mais divertidos e amenos "O Processo" e "Metamorfose", sugeridos pela amiga Rocio.

Max Martins

Franz,

Quase abandonei O Castelo também. Comecei a ler no fim de fevereiro e custei muito para terminar. Cheguei ao final movido pela curiosidade e pela teimosia.

Os seus posts sobre a Jabulani e sobre a Copa do Mundo estão ótimos. Ah, também gostei da mudança de visual no seu blog. Ficou muito bacana.

Obrigado pela visita, professor.

Forte abraço e excelente domingo!

Anônimo

Concordo com a sua resenha, abandonei há muito tempo este livro e recentemente retornei a leitura, e me lembrei do porque tinha parado.
O efeito sedativo continua e apesar de gostar muito de Kafka, tenho que admitir que não estou gostando muito deste livro, pelos motivos por você citados.
Será que vale a pena eu insistir?

Max Martins

Caro, Anônimo

Eu terminei o livro porque tinha a esperança de que acontecesse alguma coisa diferente.
Sinceramente, se alguém tivesse me alertado sobre ele, não teria lido. Porém, fica a seu critério.

Há muitos outros livros que valem mais o nosso tempo. Dê uma olhada na seção Café Cultural, no menu abaixo da imagem do cabeçalho tem o link.

Obrigado pela visita e comentário.

Forte abraço!

SELMA ALVES

Será que so eu tenho uma outra visão do livro??? Até fiz uma comunicação em um seminário ..poucos se inscreveram...isso há 07 anos..e hoje relendo posso afirmar que amo O CASTELO...uma outra leitura.

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